quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

Eça de Queirós - uma curta biografia

Queirós, (José Maria) Eça de (1845 - 1900)

Na obra deste vulto máximo da literatura portuguesa, criador do romance moderno, distinguem-se usualmente três fases estéticas. A primeira, de influência romântica, englobaria as experiências jornalísticas do autor, no âmbito das quais iniciou a observação crítica da sociedade portuguesa, bem como os textos posteriormente incluídos nas Prosas Bárbaras e iria até à publicação de Mistério da Estrada de Sintra, escrito com Ramalho Ortigão. A segunda, de afirmação do Realismo-Naturalismo, iniciar-se-ia com a participação do autor nas Conferências do Casino Lisbonense, teorizando "O Realismo como nova expressão da Arte", e manifestar-se­ia plenamente nos romances O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro. A terceira, de questionamento e de superação do Realismo-Naturalismo, espelhar-se-ia nos romances A Relíquia e Os Maias e nos semi-póstumos A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras, nos quais os pressupostos científicos ou deterministas soçobram ante "o manto diáfano da fantasia", a imaginação, o fantástico.


Filho natural de um magistrado, também ele escritor, e depois de uma infância passada fora do lar paterno, Eça vai cursar Leis para Coimbra, em 1861, onde convive com muitos dos futuros representantes da Geração de 70, já então aglutinados em torno da figura carismática de Antero de Quental, e onde acede às recentes ou redescobertas correntes ideológicas e literárias europeias (o Positivismo, o Socialismo utópico, o Realismo-Naturalismo), sem, contudo, participar activamente na que seria a primeira polémica dessa geração, a Questão Coimbrã.


Terminado o curso, Eça inicia a sua experiência jornalística como redactor do jornal O Distrito de Évora e colaborador na Gazeta de Portugal, onde publica muitos dos textos postumamente coligidos no volume das Prosas Bárbaras. No final de 1867, forma-se na casa de Jaime Batalha Reis, em Lisboa, o grupo que ficaria conhecido como o Cenáculo, de que farão parte, nesta primeira fase, além de Eça e de Batalha Reis, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e Salomão Saragga, entre outros.


Após uma viagem pelo Oriente, para assistir à inauguração do canal do Suez, na qualidade de correspondente do Diário Nacional, Eça regressa a Lisboa, onde participa, com Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, na criação do poeta satânico Carlos Fradique Mendes e escreve, de parceria com Ramalho Ortigão, o Mistério da Estrada de Sintra.

Em 1871, profere a conferência "O Realismo como nova expressão da Arte", integrada nas Conferências do Casino Lisbonense e produto da evolução estética que o encaminha no sentido do Realismo-Naturalismo de Flaubert e Zola, com influência das doutrinas de Proudhon e Taine. No mesmo ano, inicia, novamente com Ramalho, a publicação de As Farpas, uma série de crónicas satíricas que, servidas por uma ironia e um humor corrosivos, movem um rigoroso inquérito à sociedade portuguesa do período da Regeneração.

Em 1872, Eça inicia também a sua carreira diplomática, no decurso da qual ocupará o cargo de cônsul sucessivamente em Havana (1872), Newcastle (1874), Bristol (1878) e Paris (1888). É, pois, com o distanciamento crítico que a experiência de vida no estrangeiro lhe permite que concebe a maior parte da sua obra romanesca, consagrada ao exame e à crítica da vida social portuguesa, de onde se destacam O Primo Basílio, O Crime do Padre Amaro, A Relíquia e Os Maias, este último considerado a sua obra-prima. Durante esses anos, colabora com crónicas e contos em vários jornais portugueses, como A Actualidade, a Gazeta de Notícias, a Revista Moderna, o Diário de Portugal e a Revista de Portugal, que funda, em 1889.

Morre aos cinquenta e cinco anos, em Paris, deixando um vasto espólio literário que seria publicado nos anos seguintes à sua morte, com "revisões" e correcções apócrifas de amigos e familiares do escritor, revelando um conjunto de textos reconhecidamente distintos da que seria a vontade final do seu autor. As vicissitudes dessas edições, onde a instância afectiva e o desejo de salvaguardar a memória literária de Eça se sobrepuseram quase sempre ao tratamento científico dos seus materiais, sustentaram, recentemente, o projecto de edição crítica das obras de Eça de Queirós, que tem vindo a ser levado a cabo pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, sob a coordenação de Carlos Reis.

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